sábado, 1 de outubro de 2011

A dança do Amarelo

Parte VII



O sol se pôs. O sol nasceu. Várias vezes repetiu-se essa dança. Nunca falhou. O sol se põe. O sol vai nascendo... surge a luz. Talita desperta cada um de seus sentidos vagarosamente. Aperta os olhos. Não quer acordar. Mas se rende quando ouve o pássaro a cantar quase acima de sua cabeça. Move-se. Mas permanece deitada sobre a relva. Contempla o verde iluminado da copa da árvore cuja sombra cobre seu corpo como um manto no leito de terra. A ave voa. E sai do campo de visão de Talita. "Há tanto mais que eu não consigo ver.", imagina a menina que acordara pensando em seu amado. Agora já admite para si mesma e para o mundo que ama seu amado. Não se envergonha da boa dádiva que dele recebera: a planta. Pensa agora em quando foi posta no caminho. Sem muito compreender, falhou tanto. Mesmo depois de compreender ainda falhava... tanto. Mas agora ela sentia que o Jardineiro estava com ela. Mas não apenas isso: ela sabia que andava com Ele. Fechou os olhos. Pintou em sua mente a imagem dele. Em várias cenas. Quando lhe entregou o vaso. Quando a chamou pelo nome. Quando lhe disse que enfrentaria a fogueira para alimentá-la. Quando disse que a amava... ah, como fora lindo. E como ela havia sido boba! Lembrou-se também de quando o Jardineiro sussurrava em seu coração as palavras de ânimo ao enfrentar a fome, o frio, a chuva. Abre os olhos. Ainda deitada, esboça um sorriso. Moveu a cabeça de lado. Um susto! Seu vaso, seu lindo vaso que era um dom do Jardineiro, que era sua preciosidade, sua vida, está... diferente. Senta-se. Suas pernas ainda estão esticadas. Arrasta e põe no colo seu vasinho para observar a novidade. Olha bem. Analisa. Há algo além das plantas com que já se acostumara. Amarelo, pequeno. Formato de uma semente em pé. Mas, não poderia ser... seria uma semente muito grande. Alguns dias atrás, em intervalos das caminhadas que se sucederam entre os os sois que nasceram e se puseram, ela havia notado um pontinho diferente. Era verde. Depois ficou branco. Agora... isso. Deixa o vaso no chão. Vira o corpo de bruços. Seu vestido estava sempre empoeirado. É no que dá viver nessa terra. Apoia-se sobre os cotovelos. Os joelhos se flexionam e os pés se tocam. E balançam. A sombra a guarda do calor. E os olhos da menina ainda fixos no desconhecido. É claro que se surpreendera ao ver surgir o primeiro broto em seu vasinho. Mas o verde ela via por todos os lados. Mas... amarelo? Para ela era muito diferente. Só conhecia duas coisas em amarelo: o Sol e o Fogo. Ambos lindos, calorosos, vivos... mas intocáveis. Não há como aproximar-se do Sol. Ele é Altíssimo. E o incrível é que, mesmo tão distante da terra, Ele a despertara essa manhã e todas as outras da vida de Talita. Ela morreria sem Ele. De frio, de medo. Como viver sem o Sol? Não conseguiria. Pára os pés. A menina agora está imóvel. Só os olhos piscam. Pensa no Fogo. Ele prepara seu alimento. Ele a aquece nas noites mais frias e ilumina as mais escuras. Ele dança sobre as cinzas. Mas consome. Não poderia tocá-lo sendo como ela é. Queimar-se-ia. Como é que pode, então, surgir o amarelo em seu vasinho? A Cor tão poderosa, distante, agora estava tão perto e podia ser... tocada. E Talita ousa. A ponta do dedo médio vai à frente, mas recua. O indicador é mais corajoso para esse desbravamento. Ora, que relutância! O vaso a ela fora dado, como não poderia tocá-lo? Decide sentar-se novamente. E o faz. Aproxima a cabeça de seu pertence e, enfim... toca. Outro susto! No exato momento em que toca o amarelo, sente um toque em seu ombro esquerdo. A menina pula com os braços para trás e dobra as pernas na frente do ventre em tentativa de defesa. "Por que o susto? Não sabe que estou aqui?"

(continua...)

sábado, 10 de setembro de 2011

Asas e chuva

Parte VI

Caminhava novamente. Sempre reflexiva quanto a tudo o que acontecera. A manhã estava linda, quase azul. Estava fresca. Às vezes ventava um pouco mais forte do que o de costume, mas Talita não se importava. Fechava os olhos e imaginava as pombas. "Ah, quem me dera asas como de pomba! Então voaria e estaria em descanso.", pensou utopicamente. Já havia compreendido que não se pode fugir de desafios, é preciso enfrentá-los. O quase azul da manhã tornara-se um quase cinza. Depois, cinza. O frio aumentou. Continuou caminhando. Caminhou continuando. Havia decidido que não pararia enquanto não se cansasse. Ela sabia que, em algum momento, chegaria ao descanso. Mas o cansaço parecia ser seu constante companheiro. É claro que não faltava forças às suas pernas. Não era nesse cansaço que pensava. Era no de levantar-se e contemplar a mesma paisagem todos os dias. Os campos verdes, a terra areada, o sol. O sol hoje estava um pouco recolhido. Parecia não querer dividir seu brilho com o mundo... Brilho. Ah, não havia figura que brilhasse mais no sonho da menina do que os olhos do Jardineiro. Pensara nele desde o acordar, mas não queria admitir para si mesma que pensava tanto nele... Lembrava-se de suas palavras junto à fogueira. Tão romântico, mas tão real. O fogo reluzia em seu olhar. Ele dissera que enfrentaria o fogo para alimentá-la. Aquilo foi tão forte. Mas não tanto quanto o momento em quem a chamara de "Meu amor...". Ao lembrar de sua voz dizendo isso, o frio do vento parecia entrar dentro de sua barriga e despertar as borboletas dentro dela adormecidas. Queria vê-lo novamente, essa era a verdade. Ah, não... o que estaria sentindo? Não se permitiria apaixonar. Caminhou. Mais. E mais um pouco. E sentiu no ombro esquerdo um toque. Caíra a primeira gota. E a segunda. E a terceira. E perdeu a conta. Até que, num rasgo violento, o céu se tornou em água. Uma água pesada que não a deixava quase pensar. E o vestido grudou no corpo. Começou a tremer de frio. Ajoelhou-se e deixou escapar de suas mãos o seu vasinho. E não sabia se a água em seu rosto era chuva ou lágrimas. "Por quê é que você me deixa sozinha numa chuva dessas? Onde está você agora?". Já estava encharcada. Desistiu de resistir à chuva. Endireitou o vaso entre as pernas ajoelhadas e o cobriu acima com sua cabeça. E chorava. Observou seus cabelos caindo em volta do rosto. Olhou para seu vasinho e deixou que suas lágrimas caíssem sobre a pequena quantidade de terra ali. Chorando, começou a apreciar a massagem que recebia nas costas por causa da força da chuva. E começou a mandar seu coração apreciar aquilo como um presente. O dia estivera lindo, mas ficara cinza. O sol estivera quentinho, combinando perfeitamente com o vento fresco. Mas agora ela sabia que seu amor queria dar a ela uma massagem. Era a cara do Jardineiro dar presentes assim. A ela cabia o aprendizado de enxergar todas as coisas como uma dádiva, porque sabia que todas as coisas, de alguma forma contribuiriam para o bem dela. Então parou de chorar. Ergueu a cabeça. Levantou o corpo. Ficou de pé. E começou a dançar. Dançava quase voando. Ela decidiu crer que seu amado estava ali. Não se importava mais em estar apaixonada. Desejava sim vê-lo. E rodava em torno de si mesma. Girava os pés na lama que se formara na terra da estrada. Fechou os olhos e imaginou seu amor dançando ali com ela. E bailou.


E foi diminuindo a chuva... e ela sussurrou "Não, pare... não vá. Fique mais comigo." E a chuva parou. O sol abriu seus braços e abraçou a terra novamente, quase como um milagre. E ela se abriu para o momento e agradeceu por saber que Ele estava ali. Agradeceu pela chuva e pela dança concedida. E pela massagem. "Desculpe por não ter entendido seu presente... e quer saber?". Pausa. "Amo você...". Admitiu. Pegou seu vasinho no chão. Achou, por um instante, que sua plantinha havia crescido mais. Estava certa? Não sabia. Mas então seguiu pelo Caminho. Feliz. Quase saltitante. Encontrara seu amado.

(continua)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A fogueira e o broto

Parte V

Há pouco menos de uma hora adormecera. Até que o corpo, cansado e totalmente relaxado, voltou lentamente a se revigorar, como se quisesse acordar, como se alguém o despertasse. Apenas os olhos insistiam em permanecer fechados. Talita movera seu corpo rapidamente. Fingiu que não estava acordada. "Por que vou acordar agora? Acabo de pegar no sono!". Depois de alguns segundos, abriu os olhos. Ainda embaçados, os amendoados olhos de Talita pareciam enganá-la com uma luz que ainda não vira. Apertou-os. Abriu novamente as janelas da alma e percebeu que não estava só. A luz que vira era da chama de fogo. Bem à sua frente. E combinava perfeitamente com a crepitação aos ouvidos. O que havia acontecido? O que aquele fogo estava fazendo ali? Talita virou o corpo para o outro lado, estava com os braços dormentes de frio. Estava ansiosa para levantar-se e tornar a olhar o fogo, mas não tinha a ajuda dos braços. Ativou seu olfato. Achou que estava delirando. Não poderia ser. Tentou, tentou e... levantou-se, finalmente. Virou-se. "Ah!", saltou aguda a vogal de sua garganta num grito estridente! Boquiaberta, perplexa... balbuciava uma pergunta... "Não precisa ter medo de mim, acho que você já sabe disso.", disse o Jardineiro muito tranquilo, ajoelhado e mexendo em alguma coisa que queimava ao fogo. Ou melhor, assava. Sim, era peixe mesmo. A menina não delirara. Não quanto ao peixe, mas quanto ao homem à sua frente, não estava tão certa... "Você... como... onde...", e desistiu de perguntar. Olhou para ele e o achou tão belo. Não havia pensado nisso antes. Achou-o belo, mas não soube porquê. Não havia nada nele que uma menina considerasse bonito, mas era totalmente desejável, amável. Era forte, mas era manso. Seu olhar era firme, mas suave. Sua voz era poderosa, mas doce. Aproximou-se do rosto iluminado pelo fogo e... tocou. O Jardineiro parou de olhar o fogo e começou a virar o rosto para ela, que ainda não tirara sua mão da face daquele homem. E, em milésimos de segundos, o coração de Talita disparou e os olhares se encontraram. Naquele momento o mundo parou. Som algum chegou aos seus ouvidos. Ela esqueceu a fome que sentia, ou a sede. O vento paralisou. A menina sentiu que aquele momento era o que desejara a vida inteira, apesar de nunca imaginá-lo. Abaixou a mão sem mover os olhos. O Jardineiro tomou sua mão entre as suas e, como se aprofundasse ainda mais o seu olhar, permitiu que as palavras dançassem para fora dos lábios que se abriam lindamente: "Eu amo você."

Pausa.

Não conseguiam deixar de se olhar. Era lindo. Talita se esforçou, tentou... não queria isso, mas não conseguiu responder. Ela lembrara de tudo que havia pensado sobre ele: que ele a abandonara, não respondera a nenhuma de suas perguntas, dera a ela um vaso sem planta e tinha o péssimo costume de aparecer e desaparecer nas horas mais impróprias. E, puxando a mão para longe dele, virou o rosto para o olhar o fogo. "É peixe?", perguntou. E o Jardineiro, como se soubesse de tudo que havia acontecido dentro dela, respondeu: "Eu me tornaria esse peixe e enfrentaria o fogo para alimentar você, para você não morrer, Talita.". Completamente surpreendida pelas palavras que foram como seta em seu coração, a menina desiste de segurar os pensamentos. É como se ela soubesse que, estranhamente, nada ficava oculto ao Jardineiro. "Então por que você age assim? Por que desaparece do nada, aparece de novo? Você me pôs nessa estrada e simplesmente foi embora!". Outra pausa. Uma menor dessa vez. A menina sentiu que falara coisas que não devia. De alguma forma, suas palavras soaram desagradáveis até mesmo para ela. E o Jardineiro resolveu falar: "Você não tem que saber o que faço ou deixo de fazer. Você não tem que saber a minha forma de agir. E eu não tenho obrigação de aparecer para você. Onde é que você estava enquanto eu cultivava todo esse campo à sua volta, Talita? Você sabe quais são as flores que plantei antes da curva do fim da estrada? Você estava lá quando eu decidi quais plantas ficariam em volta da grande árvore? Onde você estava, Talita?" O coração apertou. Essa última pergunta foi difícil de ouvir. Foi exatamente essa pergunta que a menina fizera ao homem há pouco. E ele voltou a mexer na fogueira. "Não sei de nada do que você está falando.", disse a menina, agora bem mais mansa. Ajoelhou-se ao lado dele e repetiu: "Não sei de nada.". Ele sorriu. Virou-se de lado e retirou de um balaio, que a menina ainda não vira, um odre e um pão. Entregou o odre à menina. Partiu o pão. Tirou o peixe do fogo e o pôs dentro do pão. Entregou também à menina. Ela ceou. Ele ficou ali ao lado dela. Ao terminar a refeição, Talita encostou a cabeça no ombro dele e sussurrou: "Você vai de novo, não é?". O Jardineiro esboçou um sorriso, pegou na mão da menina e respondeu baixinho em seu ouvido: "Meu amor, você ainda não entendeu que eu nunca fui?"



...

Assustou-se. Abriu os olhos. Num pulo, Talita se levanta no meio da noite e se assenta no chão de terra. Onde estava a fogueira, o Jardineiro, a fogueira? Nada estava ali. Será que tudo não passara de um sonho? Quase deixou que seu coração se entristecesse quando... ah, que linda cena percebera! Talita baixou os olhos ao seu lado e ali estava seu vasinho! Mas não era sua pura afeição ao objeto que a movia... havia brotado dele uma pequena folha verde, cheia de vida e esperança! Agora sim ela compreendera que a semente estava ali o tempo todo. Ele estava ali o tempo todo. E havia se tornado o seu maior amor, o seu sonho de menina. Abraçou seu vasinho, agora com planta. Deitou-se e quis sonhar com o Jardineiro. Olhou para o céu. Lembrou-se do calor da fogueira.



E dormiu, esperando que o sol a acordasse.

(continua)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A noite de uma estrela só

Parte IV

O sol se quase pôs. Talita, que havia parado para assistir à bela cena, estava assentada sustentando-se com as mãos no chão para trás das costas. O vaso sem planta entre as pernas semiflexionadas parecia acompanhar o momento em que a terra recolhia para si o sol num abraço afetuosamente laranja. A cada segundo, a grande bola de fogo diminuía. Era como Talita se sentia. Mas era estranho porque, ao mesmo tempo que se sentia diminuída, sabia que, de alguma forma, isso a fazia crescer por dentro. Assim como o sol, que crescia para dentro da terra e decrescia fora dela. O ponto redondo sumiu na linha amarela e o céu estava rosa.  Nuvens cinzas contrastavam para compor o cenário perfeito. E o dia finalmente trocou o branco pelo azul quando desapareceu o último resquício da linha solar no horizonte. Talita joga o corpo para frente, de modo a não precisar mais de suas mãos para firmar-se. Com as pernas agora cruzadas, toma nas mãos seu vasinho. Afeiçoara-se a ele de uma forma que não esperava. Se bem que além do leve vestido, das sandálias que a trajavam e das perguntas em sua mente, aquele objeto de regeneração misteriosa era tudo que possuía. Era sua vida. Vida. Pensou nessa palavra. Deixou o vaso ao lado de seu corpo, cruzou os dedos atrás da cabeça e jogou-se para trás, deitando as costas e os cabelos na poeira do chão sob si. Não se importava. E viu o céu. Viajou do rosa, ao roxo e depois ao azul escuro. Observou uma única estrela que brilhava. Estava só. Única luz daquele mar de escuridão. Uma leve brisa passou por todo seu corpo. Arrepiou-se. Sentiu um frio gelado. E fome. Porque havia apenas bebido. E sentiu medo. Porque estava só como aquela estrela, e a lua não aparecera. Lembrou-se do seu encontro com o Jardineiro. "Não tenha medo", disse ele, "Ande sempre na luz". Pois é... onde estava a luz agora? E, com súbito pavor, ergueu-se presto e apoiou-se de lado pelos cotovelos. Puxou para si seu vasinho. Ele podia não ter planta, mas era seu. Arrastou-se nervosa para o canto da estrada. Trêmula, deitou-se em diagonal com o vaso abraçado ao peito. Olhou para o céu à procura da lua, mas não a encontrou. Sentia que nada a abrigava, apenas a solidão e o temor. Deixou escapar uma lágrima. Os braços gelavam-se. E como não tivesse outra opção, adormeceu no início da noite. E entregou-se ao sono sem paz, sem sonho, sem luar. Ela era a única estrela. E a estrela sentia-se .


não sabia que o céu a abraçava.

(continua)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Velho

Parte III

Muita luz. Acordou com a cabeça quente demais e o  rosto queimado do sol. Tapou os olhos com as mãos até se acostumarem à luz. Olhou para trás de si mesma e viu que a árvore, sob cuja copa adormecera, havia morrido, simplesmente. "Que lugar é esse onde as árvores surgem em um momento e morrem em outro?", pensou. Aborrecida, levantou-se. Limpou a poeira do vestido. Abaixou-se e pegou seu pequeno vaso sem planta. Ainda não fazia ideia de como ele estava inteiro novamente. Nem ainda compreendera a árvore. Mas de uma coisa tinha certeza: o Jardineiro estava envolvido com isso. Não entendia aquele homem, mas, de alguma forma, gostava dele. Quando ele estava por perto, sentia-se completa. Voltou a olhar seu pequeno vaso. Percebeu que a terra dele estava secando. Decidiu procurar por água, para si e para seu precioso. Ainda estava aborrecida por ter acordado com a cabeça quente de sol. O rosto ardia pelas leves queimaduras na pele. E começou a caminhar, e caminhar, e caminhar... caminhar por uma jornada quase sem fim. Via-se os campos muito verdes, o sol que escaldava e a poeira que subia, quase como um ser vivo para aumentar a sequidão da garganta de Talita. A menina foi se cansando cada vez mais a cada passo. Mas sua mente continuava a jornada rápida em tentar compreender o mágico conserto de seu vaso e o nascimento e morte súbitos daquela árvore. Os olhos iam se tornando cada vez mais pesados. Caminhava há horas sob o sol e sem água. Estava a ponto de desfalecer. Ofegante, ia se deixar cair de joelhos sobre o chão quando avistou, a uma distância não muito grande, uma inóspita figura. A curiosidade tornara-se maior que o peso dos olhos. Tentou salivar e sentiu a língua como uma lixa. Isso estranhamente a fez decidir que precisava realmente se aproximar do vulto que vira. Sem forças nos braços, lutava para caminhar com o vaso sem planta pendurado nas mãos a bater nos joelhos semiflexionados. E, apesar de antes parecer impossível, percebera-se mais próxima da figura. Era uma pessoa sentada à margem do caminho. Usava um manto escuro, não sabia se era verde ou marrom, difícil de discernir. Com um capuz que cobria a cabeça. E tinha uma bolsa, uma bolsa grande. Na verdade era uma trouxa de pano, mas era bem grande e estava ao lado do seu dono que olhava para fixamente para o chão. Talita chegou em frente à figura, que levantou a fronte e olhou para ela. Ela pôde então observar as linhas no rosto do Velho. Parecia carrancudo, mas seu olhar era gentil. "Talita", proferiu o Velho com sua voz doce e cansada pelo tempo. "Como sabe meu... o nome que me deram?", retrucou a menina desconfiada. O Velho esboçou um sorriso e virou-se para sua bolsa. Desatou o nó que a fechava. Enfiou a mão enrugada e retirou de lá um odre de couro. Ergueu o utensílio para a menina e sussurrou "Beba". Desfazendo-se da desconfiança, Talita resolveu apostar todas as fichas na aparente boa vontade daquele velhinho à sua frente. Colocou seu vaso no chão, pegou aquele odre e bebeu avidamente, deixando escorrer um fio de água pelo pescoço até o peito. Engasgou, tossiu. Passou as costas da mão na boca molhada. Abaixou-se e derramou algumas gotas na terra de seu vaso. Percebeu que o Velho olhava para seu pertence. "Obrigada pela água.", disse Talita educadamente. "Já foi quebrado?", perguntou o Velho, como se desconsiderasse totalmente o agradecimento da menina. "O quê?", retrucou ela, sem entender. "O vaso... já foi quebrado?", perguntou o velho novamente, agora permitindo que um tom de enfado permeasse a sua voz. Surpresa com a pergunta, Talita respondeu timidamente: "Sim. Mas como você sabe que...", mas foi rispidamente interrompida pelo velho, que parecera satisfazer-se apenas com o primeiro vocábulo proferido em resposta à sua pergunta: "Bom, bom...". A menina sentia-se cada vez mais confusa e viu-se nervosa ao perceber que o Velho intentava tomar nas mãos o seu vaso. Adiantou-se e o pegou rapidamente. "Ele estava quebrado mas... não sei como, apareceu novo. E tinha uma árvore também que...", e novamente foi interrompida pelo Velho, que não se preocupava definitivamente em parecer simpático: "Para ser um vaso novo é preciso ser quebrado primeiro. E parabéns, menina. Devo admitir que você tem em mãos uma bela iguaria." Quase irritada, Talita argumenta: "Como você pode me dizer que um simples vaso de barro sem planta alguma é uma bela iguaria? Você acha que eu não sei que aquele Jardineiro poderia me dar algo melhor? Quer mesmo que eu acredite que possuo uma bela iguaria?" O Velho, cabisbaixo, começou a amarrar a sua bolsa de pano cuidadosamente. Esforçou-se para levantar e Talita percebeu que ele intentava ir embora, não sabia para onde. "Aonde você vai?", perguntou ela. "Menina Talita, você precisa se concentrar mais no Caminho do que no presente que recebeu. Só assim vai perceber o valor real do que tem em mãos.". Tocada com o que disse, Talita tomou o vaso nas mãos e levantou-se. Olhou fixamente para o Caminho à sua frente enquanto sua visão periférica apenas a fazia saber que o Velho levantara e andava para trás dela, em direção oposta à que a menina tomava. Passados alguns segundos em que olhava inerte para frente, Talita resolveu retomar a conversa: "Você sabe meu nome, mas ainda não sei o seu.", e como não chegara a resposta, virou-se para perguntar novamente, caso não tivesse sido ouvida e... "Onde...", pensou, "... foi parar o senhor...". E não havia nada para trás de seu caminho a ser visto. Nada além dos verdes campos e da poeira de sempre. Tornou à frente outra vez, ainda com seu vaso nas mãos. "Qual o problema desse lugar, do qual só eu não desapareço?", perguntou a si mesma em voz alta. Olhou para seu pertence e conversou com ele como se fosse alguém: "E você? O que será que você possui de tão mágico nessa terra aí dentro?". E riu. Riu de si mesma. Riu de seus momentos desesperados que não deram em nada. Riu de todas as vezes em que se achou uma louca. Riu por estar falando com um vaso de barro. Riu porque a água fresca renovara suas forças e sentia-se viva novamente. E refletia em tudo o que o Velho lhe dissera. E o sol refletia em seus cabelos. Deu mais um passo para a continuação de sua estranha e aventureira jornada. Sentiu uma brisa leve. E continuou a caminhar.


(continua)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A árvore e o vaso quebrado

Parte II

Ali estava Talita. Desolada, com medo, aparentemente só. Deu uma volta em torno de seu próprio eixo à procura do Jardineiro. Nada via além dos campos verdes e vivos que bailavam com a música do vento repartidos pelo caminho de terra seca à sua frente. Nem árvores podiam ver-se. Olhou para o vaso sem planta em suas mãos e revoltou-se. Por quê ela? Por que a levaram até ali? Por que não deixaram ninguém com ela? E por que, dentre tantas plantas em um jardim, ou flores, o Jardineiro dera a ela um vaso sem planta? Ele não a chamara de "sua menina"? Impelida pela raiva, atirou no chão o vaso que ganhara. Quebrou-se a borda de argila e a terra úmida se misturou à poeira seca do chão. E como se fosse tomada por um desespero dominador, correu. Correu e correu... e tudo corria em sua mente. Fechou os olhos e tentou pensar só no vento que lhe batia as faces. Não sabia porque, mas Talita sentiu doer o coração enquanto corria, como se ele fosse torcido como se torce um pano molhado. E as gotas resolveram sair pelos olhos fechados. Percebeu algo diferente, mas não quis abrir os olhos. Sentiu que perdera a direção da corrida. O coração ainda torcido, os olhos ainda fechados e molhados. Os pés se enroscaram em algo. Caiu. Só abriu os olhos durante a queda. Acho que quase todos são assim. E com o corpo amortecido pelos feixes em que os pés se enrolaram, chorou. E chorou sua alma para fora com a cabeça virada para o chão. E parou de chorar. Levantou-se. Enxugou os olhos com as mãos, arrumou os cabelos. Olhou para si e se consertou. Voltou para o Caminho. Olhou para cima, para onde o Sol já chegara. Apertou os olhos pela luz. Começou a andar na direção oposta à que correu. Andou, andou... de cabeça baixa a observar a poeira que subia de cada passo de seus pés. Chegou ao lugar de onde havia corrido e... surpreendeu-se. No lugar onde o vaso quebrara havia crescido uma árvore. Talita olhou para aquilo e não soube o que pensar. Aproximou-se. Entrou na área de sombra. Observou a copa com os pequenos resquícios de luz do Sol que por ela trespassavam. Foi descendo os olhos pelo tronco até a raiz até que... parou. E viu no chão, recostado à árvore, o seu vaso sem planta. Mas não estava mais caído, nem quebrado. Chegou perto, tomou o vaso nas mãos e o apertou junto de si. Era seu vaso, mas era um vaso novo. Era o único presente que recebera. Arrependeu-se de tê-lo atirado ao chão, era tudo que tinha, era sua vida. E não iria deixá-la novamente. E assentou-se debaixo da sombra, admirando seu novo velho vaso e, de alguma forma, apaixonara-se por ele. E sabia que deveria enfrentar o Caminho com aquele presente. Mas antes disso, adormeceu. Embora agora estivesse mais acordada que antes.



(continua)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Jardineiro e o vaso sem planta

Parte I

Inspirou pela primeira vez. Abriu os olhos. Estava escuro e ela se sentiu só. Estava frio e ela se sentiu com medo. Estava com medo e ela se sentiu fria. Apertou os olhos e conseguiu enxergar lá longe uma linha. Muito grande, muito comprida. Numa tonalidade marrom-alaranjada. Todo o resto era azul, quase negro. Não sabia porque, mas sentiu o ar se aquecer. Chegara alguém? Mas ela não conhecia ninguém. O que ela estava fazendo ali, afinal de contas? Por que tudo começara do nada tão de repente? A linha ao longe engrossou. Tornara-se mais espessa e amareladamente brilhante. Um ponto maior surgiu ao meio. E Ele chegou. "Talita, o Caminho é para você seguir." A menina pôs-se então a olhar para o chão e percebeu que a luminosidade cada vez maior tornara possível à estrada de ser vista. "Por quê eu? Por quê este nome? O que me aguarda nessa estrada? Quem é você? De onde você veio?", falava esbaforidamente, impressionada com a calma de quem a olhava como se olha um sonho que se concretiza, se é que ela conseguia imaginar isso... "Eu sou o Jardineiro, Talita. Sempre estive aqui. E você é minha menina." Talita, que agora aceitara o nome para si como se veste uma roupa feita sob medida, olhou o Jardineiro e tentou de alguma forma entender tudo aquilo. Só sabia que desde que o vira a paz parecia inundá-la. Ela o observava sedenta quando Ele começou a dizer: "Esta é sua planta. Siga o Sol de dia e a Lua de noite. Ande na luz sempre. Não tenha medo." A essa altura já se fazia claro o dia. Talita olhou para as mãos do Jardineiro e Ele segurava um vaso com terra. Ela pegou o vaso, olhou atentamente, cheirou a terra úmida de orvalho e perguntou: "Onde está a planta?" E como se o silêncio fosse alguém, ela levantou a fronte para olhá-lo. E o Jardineiro não podia mais ser visto. "Onde está você?" Para onde poderia ter ido o Jardineiro tão rapidamente? Teria deixado-a só para sempre? Estaria ela realmente só? Pelo menos era assim que via a si mesma. Uma menina só, com um vaso sem planta, e que fizera um Amigo que não podia mais se ver, e com o Caminho à sua frente iluminado pelo Sol...


E, é claro, com muitas perguntas...

(continua)