terça-feira, 22 de maio de 2012

Pensando em meu Pai


Hoje desci pra encontrar meu pai e ir pra casa.

Ele estava sentado no banco. Eu vi meu pai de lado.

Fiquei com tanta saudade do tempo em que a gente brincava mais do que conversava. Ele já tá cheio de cabelo branco... Você não imagina como ele era lindo e forte. Pra mim ele vai ser sempre assim. Fico pensando que vou sentir muita falta dele quando eu for embora.

O meu pai ficou velho e a vida chegou pra mim. Foi tão inevitável. E é tão difícil.

Porque a vida vem com as frustrações, as decepções, as responsabilidades, e não dá pra fugir. Não dá mais só pra ir chorando pra perna dele, sabe?

Mas eu agradeço muito a Deus pelo pai que ele me deu. Errou tanto comigo, mas me amou com cada gota de sangue que ele tem no corpo.

Pensei muito nisso hoje quando ele estava me esperando na praça, me viu, levantou e veio sorrindo. Foi tão bonito, mas ele nem sabe que eu pensei isso tudo em milésimos de segundo.

Mas o importante é que ele sabe que o meu amor é o tempo todo.

Todos os segundos.


domingo, 13 de maio de 2012

Palavras para a Mãe em seu dia


À que se nomeia com a palavra mais doce de se dizer, é pouca toda poesia enriquecida, ou toda música que maravilha os seres viventes, que nela dantes foram gerados. É pouco todo discurso, é pouco todo ato, porque é fato que a ela se deve a vida, a paciência, o reconhecimento, o carinho, a gratidão e, é claro, o maior presente que dela provém: o amor. Que seja ele todo dedicado a ela hoje e sempre. Mãe, amo você.


sábado, 5 de maio de 2012

Conversa a dois

 - Oi, tá aí?
 - Oi! Claro que sim! Sempre.
 - Me desculpa, tá? Às vezes eu me esqueço de que sempre posso contar com a sua presença.
 - Tudo bem. Sempre pode contar com meu perdão também.
 - Obrigada por isso. Mesmo. Aliás, obrigada por tudo. Tô com saudade de ouvir sua voz.
 - E eu de ouvir a sua.
 - Minha voz não é bonita igual à sua. Fala alguma coisa pra mim. Ou canta. Tudo que sai da sua boca é tão bonito... tão poderoso. É como a luz para a escuridão total.
 - Ah, como eu amo você falando... continua.
 - Não, é sua vez agora. Você também tem que falar.
 - (...)
 - Tá, você não tem que fazer nada. Depois de tudo que você já fez... seu amor já tá mais do que provado. Mas é porque eu gosto tanto de ouvir sua voz, é linda. Puxa... te amo.
 - Também te amo. Agora me deixa ver seu rosto e ouvir a sua voz. Sua voz é doce e seu rosto é belo.
 - Que bom que gosta. Você que fez.
"Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me a tua face, faze-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa." (Cantares 2:14)

domingo, 15 de abril de 2012

Café de brasileira


Senta aqui um pouquinho que eu tô com uma saudade danada de conversar com o senhor. 
Coisa linda esse céu hoje de manhã, hein? 
Todo dia parece que o senhor deixa o negócio mais bonito, impressionante isso. 
Mas tava quente viu? 
Quer um cafezinho? 
Passei agora. 
Vou tomar um cadinho também. 
Falando nisso, o senhor sabe que eu não corro não. 
Posso até chorar, mas eu encaro mesmo!  
Tô contigo e não abro! 
Mas, Jesus, esse café tá amargo demais. 
Eu falo assim porque eu sei que com o senhor eu posso ser sincera. 
Ô, Jesus, põe um pouquinho de açúcar nesse café. 
Por favor, que desse jeito tá difícil de engolir. 
Eu tô sempre firme aqui, contigo. 
Todo dia labutando, dando nó em pingo d’água. 
Mas o senhor sabe que a hora que eu mais gosto do meu dia é esse tempinho que a gente passa junto, né? 
O senhor gosta? 
Eu acho que sim porque o senhor sempre vem...
Ai, Jesus, ajuda meus meninos. 
Dá um trabalho bom pro Zé. 
O senhor sabe que tô tendo que botar muita água nesse feijão pra durar a semana. 
Mas obrigada porque o senhor não deixou faltar nem um arrozinho, um ovinho, um feijão. 
Obrigada, Jesus. 
Tem até esse cafezinho pra tomar com o senhor. 
Daqui a pouco escurece. 
Eu tô com roupa no tanque, tenho que ir lá. 
Mas é tão bom ficar contigo aqui. 
Ê vida! 
Ainda bem que o senhor não vai embora nunca. 
Daqui a pouco eu volto pra gente continuar a prosa. 
Se o senhor mandar a farinha, eu faço bolo depois pra gente conversar mais e pro Zé ficar feliz. 
Ô, Jesus, obrigada por tudo, viu?
Amém. 


terça-feira, 3 de abril de 2012

Veritas

Se eu disser a verdade sobre quem me ama serei exagerada, 
porque não há ninguém tão bom como eu diria.
E não vai ser totalmente verdade.
Se eu disser a verdade sobre quem me odeia serei injusta, 
porque eu também não amo todo mundo.
E não vai ser totalmente verdade.
Se eu disser a verdade sobre o mundo serei ineficiente, 
porque o mundo diz que há muitas verdades.
E não vai ser totalmente verdade.
Se eu disser a verdade sobre mim mesma serei parcial, 
porque me olho no espelho e faço maquiagem.
E não vai ser totalmente verdade.
Mas (e ainda bem que existe esse mas),
se eu disser a verdade sobre Deus (o motivo do meu mas, porém, contudo, todavia e entretanto,
e que muda o sentido da oração, da perícope, do livro, da vida)
então sou óbvia.

Porque ele é a verdade. Pura e total.


João 14:6

sábado, 31 de março de 2012

O menino que andava nas nuvens



Ele era diferente dos outros. No olhar dele tinha alguma coisa de sonho, uma coisa dessas que não se pode explicar. Tinha também um infinito. Se alguém se atrevesse a olhar por mais de dois segundos dentro daqueles olhos correria um grande risco de se perder totalmente. Ou se encontrar. Mas era um menino, desses que a gente vê andando pela rua, que vai pra escola todo dia e gosta de alguma coisa de que gostam os meninos. Mas, ainda assim, ele era diferente dos outros.

Até que um dia, olhando para ele, aconteceu uma coisa linda. Nem todo mundo acredita, mas é a verdade. Uma verdade dessas fantasiadas de poesia. Os pés dele estavam no chão, eu vi. A cabeça estava nos ares. Ela se mexia num ritmo bonito, como se houvesse muita música presa dentro dos ouvidos. A cabeça subia, subia até chegar perto do sol. Então o rosto se aqueceu e o calor desceu pro coração. Aí foi que aconteceu de verdade. Depois que o coração aqueceu, os pés saíram do chão! Foram subindo, os braços se abrindo e quase podia abraçar o mundo. Ele voou em si mesmo até umas alturas desconhecidas.

Quando chegou bem lá em cima, afofou os pés numa nuvem bem branquinha que passou por perto. E saiu caminhando. Gostou de andar nas nuvens. E decidiu que andaria por lá. Se queria brincar, era só estender a mão pra pegar uma estrela. Se sentia frio, abraçava o sol. Se sentia calor, saltava pelas nuvens até o outro lado do mundo, onde a noite poderia refrigerar os seus desejos. Tinha tudo o que precisava. Os seus sonhos eram reais nas nuvens.

Mas um dia as nuvens estavam acinzentadas. Procurou um arco-íris e não achou. Procurou um amigo pelas nuvens e não encontrou. Ele sentiu solidão. Foi aí que descobriu que as pessoas do mundo não vão para as nuvens, os pés delas estão grudados no chão. Quis abraçar o mundo, mas sempre faltava uma parte. O menino percebeu que mesmo que abraçasse o mundo todo, o mundo não queria abraçar de volta. Achou difícil caminhar sobre as nuvens. Entendeu que sonhava sozinho. Aí teve uma ideia.

Coseu muitos sacos de pano. Encheu cada um, cuidadosamente, de nuvens. E todas as vezes que uma pessoa do mundo fechava os olhos por mais de cinco minutos, o menino descia e colocava o saquinho de nuvem debaixo da cabeça da pessoa. E ali ficava a pessoa, por horas, com os olhos fechados e a cabeça nas nuvens. Então as pessoas começaram a sonhar. Elas sonhavam e o céu escurecia e acendia estrelas. E todas as noites o menino que andava nas nuvens tinha sonhadores de companhia. Mas era só tirar a cabeça do saquinho de nuvem que os sonhos se tiravam de dentro das pessoas.

Mas a grande esperança do menino que andava nas nuvens era que as pessoas do mundo descobrissem que o saquinho de pano era só o embrulho. Se elas libertassem as nuvens, poderiam ser como ele e caminhar sobre as nuvens. O menino conhecia o segredo que mais ninguém conhecia: ele não precisava fechar os olhos para sonhar. E é por lá que está até hoje o menino que andava nas nuvens. Coração aquecido, nuvem no pé, música no ouvido e sonhos nos olhos de quem quiser...

domingo, 4 de março de 2012

Musica et Vita


Quem me conhece sabe que gosto das melodias. Especialmente das melodias mais bonitas. Mas as melodias bonitas e simples, ah! Essas eu amo. Não por causa de algum nível de dificuldade. Porque elas simplesmente não precisam de detalhes difíceis para serem interessantes. Elas são lindas por serem lindas. Simplesmente. Poderia cantá-las minha vida inteira. Seria feliz. Mas os sons que vivemos não são decididos por nós. A voz que Deus me deu é pra cantar mais do que músicas simples. Ela tem um potencial especial para cantar as mais difíceis como se fossem fáceis. A voz que recebemos não é para cantar só o simples, o bonito. É para cantarmos belamente até a melodia mais difícil que for escrita em nossa partitura. E precisamos praticar, treinar, aprender.  Temos que desenvolver as habilidades para superar a cada dia os nossos desafios musicais. Sustentar uma fermata por mais tempo. Atingir notas agudas com mais brilho. Ressoar as graves mais plenamente. Controlar melhor os stacatos para que não sejam agressivos. Aplicar a exata força no sforzando. Obedecer ao pianíssimo, mesmo que a emoção toque para nós um forte. Dar a dinâmica certa à nossa melodia. Mas ainda assim, há compassos em que precisamos aceitar notas abaixo e acima de nós. Precisamos harmonizar. Seja nos mais simples acordes maiores, seja nas mais inusitadas dissonâncias. A harmonia é funcional e cumprirá na nossa música um específico propósito. Acima de tudo, precisamos confiar no talento do Compositor. Ele é o Grande Maestro, o mais talentoso Artista. E quando o compasso à nossa frente parecer impossível de ser executado, devemos lembrar que até mesmo para as tonalidades menores, o Autor já escreveu uma picardia no final. E depois uma coda. Porque quem realmente aceita o desafio de ser regido pelo Músico Amado, nunca vai parar de cantar.