quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Já vivi...


  
Já vivi coisas boas.
Já vivi coisas ruins.
Já vivi lágrimas como rios de tristeza.
Já vivi lágrimas como torrentes incontroláveis de riso.
Já vivi sonhos que não sonhei.
Já vivi pesadelos que não imaginei.
Já vivi fotos que não tirei.
Já vivi horizontes que ninguém fotografou.
Já vivi personagens que sofreram.
Já vivi personagens que superaram a dor.
Já vivi horas com intensidade.
Já vivi horas de tédio.
Já vivi momentos que pensei que nunca enfrentaria.
Já vivi amizades que pensei que nunca conseguiria.
Já vivi superações que pensava ser impossíveis.
Já vivi recuperações de doenças que pensei ser incuráveis.
Já vivi canções belas de se dançar.
Já vivi canções que não queria ouvir.
Já vivi vitórias.
Já vivi derrotas.
Já vivi as dores de um prêmio de consolação.
Já vivi a tristeza de pagar pelos erros.
Já vivi a emoção do resultado de acertar.
Já vivi o amor.
Já vivi o desprezo.
Já vivi o descaso de quem pensei poder confiar.
Já vivi loucuras.
Já vivi sanidades.
Já vivi desvarios para depois elucidar.
Já vivi encontros.
Já vivi desencontros.
Já vivi desafetos.
Já vivi embaraços.
Já vivi glórias.
Já vivi de tudo um pouco.
Já vivi tudo de mim.
Já vivi pouco de mim.
Já vivi coisa bonita de se viver.
Já vivi coisa feia de se fazer.
Já vivi o que se há de viver.
Já vivi o não saber.

Mas o melhor de tudo que vivi não foi o momento mais feliz, o sorriso mais bonito, a foto mais engraçada ou o abraço mais gostoso.

Foi a surpresa.

O melhor de se viver é não saber o que há de vir.

E a vida é assim, igual ao vento: não se sabe de onde ele vem, nem para onde vai.
Mas sabe-se que, com a companhia do Poeta, nunca será importante o lugar onde estamos ou o que vamos viver.
 
Com Ele, a vida sempre vale a pena viver.

...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Soneto para o Caminho



Quero sempre andar com meu amado
Caminhar toda minha vida ao seu lado
Mesmo que meus sonhos pareçam longe
A minha alma nos seus olhos se esconde

Se venho triste dessa vida e fatigada
Fatigado e triste após mim vem meu sonho
E quando a força do meu braço vira nada 
No meu Amado as esperanças ponho

A caminhada é triste, rosa, cinza e alegre
Todos os elementos ela, embora, integre
É constante, reta, bela em sua totalidade

E reto é quem caminha reto nesta reta trilha
Pois não há como Pai certo ter incerta filha
E retos andamos eu e Ele para a eternidade

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O pedido final

Final

Ela não teve ar dentro de si para emitir qualquer som em resposta. "Calma, Talita. Sou eu!" retoma o Jardineiro. E lentamente a menina relaxava as pernas tesas pelo susto. Olhava fixamente para seus olhos. Que luz é essa nesse par de olhos lindo? Olhos de fogo. Seu olhar a consumia, mas não tirava sua vida. Fornecia. Tenta ajeitar-se. E o Jardineiro lá continua acocorado olhando a menina. Agora que estava mais calma, não conseguia disfarçar. Quem pode esconder felicidade assim? Patética? Quase. Romântica? De modo incorrigível! Estava tão apaixonada por ele... Senta-se com as duas pernas para um lado. Olha para ele de novo. Ele não havia parado de olhar para ela. E nunca o faria. Ela não consegue evitar o sorriso que lhe escapa pelo canto esquerdo da boca. Rubor. Abaixa os olhos e pergunta: "Você quer me dizer alguma coisa?", fala a menina quase recolhida. "Sim", responde o belo. "Eu vim para ver você. Está tão linda..." A menina se olha. Depara-se com seu vestido e corpo de poeira, cabelos emaranhados, pés sujos de caminhar... ele não pode estar falando sério. Mas mesmo assim ela sente sinceridade na fala do Jardineiro e as borboletas acordam dentro dela. O rosa invade as maçãs do rosto. Ela responde: "Obrigada". Pausa para tentar controlar a respiração ofegante. "É um botão.", disse o Jardineiro. "O quê?", pergunta a menina ainda rosada que não sabe sobre o que seu amado fala. "Amarelo. Que você estava tentando decifrar.", responde o Jardineiro. Então Talita lembra que estava admirando a novidade que surgira em seu vasinho de planta. Vira a cabeça para contemplar o objeto. Intriga-se. Decide tirar a dúvida: "Qual é o nome mesmo?". "Botão.", responde o homem com atenção, "É a flor que ainda não se tornou uma flor." Suspiro de sensação inesperada. É da menina, claro. "Está dizendo que isso vai se tornar uma flor?", pergunta a menina enfática e desacreditadamente. "Para mim, sempre foi. Porque o Jardineiro ao lançar uma semente, já sabe qual fruto quer colher." Respondeu o homem num tom enigmático, mas profunda e contraditoriamente revelador. "Essa é boa. Eu carregando meu vasinho o tempo todo, não imaginava que fosse sair algo tão belo do meio do barro.", diz Talita. "É o que o Jardineiro faz de melhor: suscita do barro preciosidades em vida.", diz o Jardineiro, que acaba de encabular a menina ao pegar nas mãos dela e a fazer suar frio. É a magna cena. Os dois se olhando nos olhos. Ele feliz, ela nervosa. O botão de flor amarelo ao lado, a copa da árvore acima deles e os campos dançando à música do vento iluminado e aquecido pelo sol... todos ansiosos pela próxima fala. "Talita", ele começa. "É chegada a hora de você florescer." A menina está estatelada e o homem sabe que ela não está entendendo suas palavras. Ainda. Ele recomeça: "A terra, o barro que há no seu vasinho suportou todos os sois e tempestades enfrentados. O calor escaldante, o frio cortante, os ventos... nada disso fez com que o barro desistisse de ser a casa da Vida, o lugar ideal para a Vida surgir. Porque, mesmo depois de todas essas fases difíceis, o barro recebeu a Vida que veio pela morte da Semente dentro dele..." Pausa. "Entende, Talita?" A menina continua confusa. O Jardineiro aproxima-se dela. Toma-a pelos braços e levanta. Ele a está segurando e ela sorri.


"Casa comigo."
Até o vento parou. Só os corações continuam. E aceleram. A menina, cujos olhos começam a lacrimejar, cairia no chão se seu amado não a tivesse nos braços, porque ela perdera as forças ao ouvir dele aquela frase. Os olhos do Jardineiro pareciam entrar e sair livremente do interior dela de tão irresistivelmente lindos e profundos que eram. Ele sorri. Ela esboça um abrir de boca mas não teve ar dentro de si para emitir qualquer som em resposta. O Jardineiro embala a menina nos braços e fecha os olhos: "Você é o barro e Eu Sou a Semente. Você entende agora, minha Flor?" Pausa. "Eu Sou o Caminho, do qual você não se desviou. Eu Sou o Sol que deu a você a Vida, que a aqueceu, que a iluminou. É por isso que é amarela sua flor." A menina, perplexa, pisca rápido várias vezes em tentativa de organizar todos os pensamentos e entendê-los.
"Sim."
Ela disse sim. Disse sim quanto a finalmente compreender tudo por que passara. Disse sim para cada um dos belos gestos do Jardineiro. Disse sim para o pedido de casamento do seu amado. Ele gentilmente coloca no chão os pés de sua noiva. Ela se firma sobre a terra. Ajeita-se. Ele vira de costas e sai andando. Ela não entende a atitude, mas aprendera a confiar. Até que vê o Jardineiro abaixar-se sob a copa da árvore da qual haviam se distanciado em alguns dos giros dele com Talita nos braços. Ele se levanta e caminha de volta em direção à amada, portando em suas mãos o vasinho que a ela dera há muito tempo. Novamente de frente um para o outro, fala o Jardineiro: "Você fez a melhor escolha, minha amada. Mas agora terá de confiar em mim. Pode ser doloroso por um momento, mas é o que você quer. Não deseja estar para sempre comigo?". "Sim, é o que eu mais quero", responde apaixonada. "Esse vasinho não suporta a força do Amarelo que tenho a compartilhar com você. Ele precisará ser quebrado.", diz o Jardineiro. Uma lágrima escorre pela face de Talita. Sente   uma forte dor a ponto de dar um grito desesperado de morte. Seu noivo a olha nos olhos e ela se comove porque Ele parece se importar mais com aquela dor do que ela mesma. E, nesse exato instante, o Jardineiro quebra todo aquele vaso em suas grandes fortes mãos. E Talita cai. E já não é.

...

Haveria quem pudesse dizer que ela morreu. Mas o fato é que logo após ter caído, Talita se levanta. Olha-se, ela traja novas e belas vestes como de princesa. O lugar é o mesmo: o Caminho. Mas tudo é novo. Ao invés de poeira, ouro. Ao invés de campos, flores. Ao invés de vento, música. Tudo era fresco e ouvia-se algo parecido com o som de muitas águas. Era um som maravilhoso para quem conhecera o deserto. Há muito ouro em todos os lugares. Ouro Amarelo. Põe a mão na cabeça. Descobre uma coroa grande e com pedras preciosas. Podia ver-se refletida no ouro ao chão. Olha novamente para os diamantes bordados nas saias de seus vestidos... quando uma mão levanta seu rosto. Era o homem mais belo que já vira. Trajava-se como um Rei. Ele olha a princesa à sua frente e a convida: "Talita, minha amada esposa, dance comigo." Então ela reconhece o Jardineiro. Aproxima-se dele e pergunta: "Jardineiro, você é um príncipe?" Ele sorri para sua amada e responde carinhosamente: "Eu Sou o Príncipe da Paz." Ela sorri de volta. Não se lembra mais da fome que passara, ou do frio, ou da chuva, ou da lama, ou do calor. Só pensa em sua dança. E em seu Príncipe. E na Paz.

...

E dançaram para sempre.

...

E longe da música, da dança, na escuridão da noite e na poeira que havia onde Talita já não era, floresce, amarela, a Tulipa.


Fim.

sábado, 1 de outubro de 2011

A dança do Amarelo

Parte VII



O sol se pôs. O sol nasceu. Várias vezes repetiu-se essa dança. Nunca falhou. O sol se põe. O sol vai nascendo... surge a luz. Talita desperta cada um de seus sentidos vagarosamente. Aperta os olhos. Não quer acordar. Mas se rende quando ouve o pássaro a cantar quase acima de sua cabeça. Move-se. Mas permanece deitada sobre a relva. Contempla o verde iluminado da copa da árvore cuja sombra cobre seu corpo como um manto no leito de terra. A ave voa. E sai do campo de visão de Talita. "Há tanto mais que eu não consigo ver.", imagina a menina que acordara pensando em seu amado. Agora já admite para si mesma e para o mundo que ama seu amado. Não se envergonha da boa dádiva que dele recebera: a planta. Pensa agora em quando foi posta no caminho. Sem muito compreender, falhou tanto. Mesmo depois de compreender ainda falhava... tanto. Mas agora ela sentia que o Jardineiro estava com ela. Mas não apenas isso: ela sabia que andava com Ele. Fechou os olhos. Pintou em sua mente a imagem dele. Em várias cenas. Quando lhe entregou o vaso. Quando a chamou pelo nome. Quando lhe disse que enfrentaria a fogueira para alimentá-la. Quando disse que a amava... ah, como fora lindo. E como ela havia sido boba! Lembrou-se também de quando o Jardineiro sussurrava em seu coração as palavras de ânimo ao enfrentar a fome, o frio, a chuva. Abre os olhos. Ainda deitada, esboça um sorriso. Moveu a cabeça de lado. Um susto! Seu vaso, seu lindo vaso que era um dom do Jardineiro, que era sua preciosidade, sua vida, está... diferente. Senta-se. Suas pernas ainda estão esticadas. Arrasta e põe no colo seu vasinho para observar a novidade. Olha bem. Analisa. Há algo além das plantas com que já se acostumara. Amarelo, pequeno. Formato de uma semente em pé. Mas, não poderia ser... seria uma semente muito grande. Alguns dias atrás, em intervalos das caminhadas que se sucederam entre os os sois que nasceram e se puseram, ela havia notado um pontinho diferente. Era verde. Depois ficou branco. Agora... isso. Deixa o vaso no chão. Vira o corpo de bruços. Seu vestido estava sempre empoeirado. É no que dá viver nessa terra. Apoia-se sobre os cotovelos. Os joelhos se flexionam e os pés se tocam. E balançam. A sombra a guarda do calor. E os olhos da menina ainda fixos no desconhecido. É claro que se surpreendera ao ver surgir o primeiro broto em seu vasinho. Mas o verde ela via por todos os lados. Mas... amarelo? Para ela era muito diferente. Só conhecia duas coisas em amarelo: o Sol e o Fogo. Ambos lindos, calorosos, vivos... mas intocáveis. Não há como aproximar-se do Sol. Ele é Altíssimo. E o incrível é que, mesmo tão distante da terra, Ele a despertara essa manhã e todas as outras da vida de Talita. Ela morreria sem Ele. De frio, de medo. Como viver sem o Sol? Não conseguiria. Pára os pés. A menina agora está imóvel. Só os olhos piscam. Pensa no Fogo. Ele prepara seu alimento. Ele a aquece nas noites mais frias e ilumina as mais escuras. Ele dança sobre as cinzas. Mas consome. Não poderia tocá-lo sendo como ela é. Queimar-se-ia. Como é que pode, então, surgir o amarelo em seu vasinho? A Cor tão poderosa, distante, agora estava tão perto e podia ser... tocada. E Talita ousa. A ponta do dedo médio vai à frente, mas recua. O indicador é mais corajoso para esse desbravamento. Ora, que relutância! O vaso a ela fora dado, como não poderia tocá-lo? Decide sentar-se novamente. E o faz. Aproxima a cabeça de seu pertence e, enfim... toca. Outro susto! No exato momento em que toca o amarelo, sente um toque em seu ombro esquerdo. A menina pula com os braços para trás e dobra as pernas na frente do ventre em tentativa de defesa. "Por que o susto? Não sabe que estou aqui?"

(continua...)

sábado, 10 de setembro de 2011

Asas e chuva

Parte VI

Caminhava novamente. Sempre reflexiva quanto a tudo o que acontecera. A manhã estava linda, quase azul. Estava fresca. Às vezes ventava um pouco mais forte do que o de costume, mas Talita não se importava. Fechava os olhos e imaginava as pombas. "Ah, quem me dera asas como de pomba! Então voaria e estaria em descanso.", pensou utopicamente. Já havia compreendido que não se pode fugir de desafios, é preciso enfrentá-los. O quase azul da manhã tornara-se um quase cinza. Depois, cinza. O frio aumentou. Continuou caminhando. Caminhou continuando. Havia decidido que não pararia enquanto não se cansasse. Ela sabia que, em algum momento, chegaria ao descanso. Mas o cansaço parecia ser seu constante companheiro. É claro que não faltava forças às suas pernas. Não era nesse cansaço que pensava. Era no de levantar-se e contemplar a mesma paisagem todos os dias. Os campos verdes, a terra areada, o sol. O sol hoje estava um pouco recolhido. Parecia não querer dividir seu brilho com o mundo... Brilho. Ah, não havia figura que brilhasse mais no sonho da menina do que os olhos do Jardineiro. Pensara nele desde o acordar, mas não queria admitir para si mesma que pensava tanto nele... Lembrava-se de suas palavras junto à fogueira. Tão romântico, mas tão real. O fogo reluzia em seu olhar. Ele dissera que enfrentaria o fogo para alimentá-la. Aquilo foi tão forte. Mas não tanto quanto o momento em quem a chamara de "Meu amor...". Ao lembrar de sua voz dizendo isso, o frio do vento parecia entrar dentro de sua barriga e despertar as borboletas dentro dela adormecidas. Queria vê-lo novamente, essa era a verdade. Ah, não... o que estaria sentindo? Não se permitiria apaixonar. Caminhou. Mais. E mais um pouco. E sentiu no ombro esquerdo um toque. Caíra a primeira gota. E a segunda. E a terceira. E perdeu a conta. Até que, num rasgo violento, o céu se tornou em água. Uma água pesada que não a deixava quase pensar. E o vestido grudou no corpo. Começou a tremer de frio. Ajoelhou-se e deixou escapar de suas mãos o seu vasinho. E não sabia se a água em seu rosto era chuva ou lágrimas. "Por quê é que você me deixa sozinha numa chuva dessas? Onde está você agora?". Já estava encharcada. Desistiu de resistir à chuva. Endireitou o vaso entre as pernas ajoelhadas e o cobriu acima com sua cabeça. E chorava. Observou seus cabelos caindo em volta do rosto. Olhou para seu vasinho e deixou que suas lágrimas caíssem sobre a pequena quantidade de terra ali. Chorando, começou a apreciar a massagem que recebia nas costas por causa da força da chuva. E começou a mandar seu coração apreciar aquilo como um presente. O dia estivera lindo, mas ficara cinza. O sol estivera quentinho, combinando perfeitamente com o vento fresco. Mas agora ela sabia que seu amor queria dar a ela uma massagem. Era a cara do Jardineiro dar presentes assim. A ela cabia o aprendizado de enxergar todas as coisas como uma dádiva, porque sabia que todas as coisas, de alguma forma contribuiriam para o bem dela. Então parou de chorar. Ergueu a cabeça. Levantou o corpo. Ficou de pé. E começou a dançar. Dançava quase voando. Ela decidiu crer que seu amado estava ali. Não se importava mais em estar apaixonada. Desejava sim vê-lo. E rodava em torno de si mesma. Girava os pés na lama que se formara na terra da estrada. Fechou os olhos e imaginou seu amor dançando ali com ela. E bailou.


E foi diminuindo a chuva... e ela sussurrou "Não, pare... não vá. Fique mais comigo." E a chuva parou. O sol abriu seus braços e abraçou a terra novamente, quase como um milagre. E ela se abriu para o momento e agradeceu por saber que Ele estava ali. Agradeceu pela chuva e pela dança concedida. E pela massagem. "Desculpe por não ter entendido seu presente... e quer saber?". Pausa. "Amo você...". Admitiu. Pegou seu vasinho no chão. Achou, por um instante, que sua plantinha havia crescido mais. Estava certa? Não sabia. Mas então seguiu pelo Caminho. Feliz. Quase saltitante. Encontrara seu amado.

(continua)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A fogueira e o broto

Parte V

Há pouco menos de uma hora adormecera. Até que o corpo, cansado e totalmente relaxado, voltou lentamente a se revigorar, como se quisesse acordar, como se alguém o despertasse. Apenas os olhos insistiam em permanecer fechados. Talita movera seu corpo rapidamente. Fingiu que não estava acordada. "Por que vou acordar agora? Acabo de pegar no sono!". Depois de alguns segundos, abriu os olhos. Ainda embaçados, os amendoados olhos de Talita pareciam enganá-la com uma luz que ainda não vira. Apertou-os. Abriu novamente as janelas da alma e percebeu que não estava só. A luz que vira era da chama de fogo. Bem à sua frente. E combinava perfeitamente com a crepitação aos ouvidos. O que havia acontecido? O que aquele fogo estava fazendo ali? Talita virou o corpo para o outro lado, estava com os braços dormentes de frio. Estava ansiosa para levantar-se e tornar a olhar o fogo, mas não tinha a ajuda dos braços. Ativou seu olfato. Achou que estava delirando. Não poderia ser. Tentou, tentou e... levantou-se, finalmente. Virou-se. "Ah!", saltou aguda a vogal de sua garganta num grito estridente! Boquiaberta, perplexa... balbuciava uma pergunta... "Não precisa ter medo de mim, acho que você já sabe disso.", disse o Jardineiro muito tranquilo, ajoelhado e mexendo em alguma coisa que queimava ao fogo. Ou melhor, assava. Sim, era peixe mesmo. A menina não delirara. Não quanto ao peixe, mas quanto ao homem à sua frente, não estava tão certa... "Você... como... onde...", e desistiu de perguntar. Olhou para ele e o achou tão belo. Não havia pensado nisso antes. Achou-o belo, mas não soube porquê. Não havia nada nele que uma menina considerasse bonito, mas era totalmente desejável, amável. Era forte, mas era manso. Seu olhar era firme, mas suave. Sua voz era poderosa, mas doce. Aproximou-se do rosto iluminado pelo fogo e... tocou. O Jardineiro parou de olhar o fogo e começou a virar o rosto para ela, que ainda não tirara sua mão da face daquele homem. E, em milésimos de segundos, o coração de Talita disparou e os olhares se encontraram. Naquele momento o mundo parou. Som algum chegou aos seus ouvidos. Ela esqueceu a fome que sentia, ou a sede. O vento paralisou. A menina sentiu que aquele momento era o que desejara a vida inteira, apesar de nunca imaginá-lo. Abaixou a mão sem mover os olhos. O Jardineiro tomou sua mão entre as suas e, como se aprofundasse ainda mais o seu olhar, permitiu que as palavras dançassem para fora dos lábios que se abriam lindamente: "Eu amo você."

Pausa.

Não conseguiam deixar de se olhar. Era lindo. Talita se esforçou, tentou... não queria isso, mas não conseguiu responder. Ela lembrara de tudo que havia pensado sobre ele: que ele a abandonara, não respondera a nenhuma de suas perguntas, dera a ela um vaso sem planta e tinha o péssimo costume de aparecer e desaparecer nas horas mais impróprias. E, puxando a mão para longe dele, virou o rosto para o olhar o fogo. "É peixe?", perguntou. E o Jardineiro, como se soubesse de tudo que havia acontecido dentro dela, respondeu: "Eu me tornaria esse peixe e enfrentaria o fogo para alimentar você, para você não morrer, Talita.". Completamente surpreendida pelas palavras que foram como seta em seu coração, a menina desiste de segurar os pensamentos. É como se ela soubesse que, estranhamente, nada ficava oculto ao Jardineiro. "Então por que você age assim? Por que desaparece do nada, aparece de novo? Você me pôs nessa estrada e simplesmente foi embora!". Outra pausa. Uma menor dessa vez. A menina sentiu que falara coisas que não devia. De alguma forma, suas palavras soaram desagradáveis até mesmo para ela. E o Jardineiro resolveu falar: "Você não tem que saber o que faço ou deixo de fazer. Você não tem que saber a minha forma de agir. E eu não tenho obrigação de aparecer para você. Onde é que você estava enquanto eu cultivava todo esse campo à sua volta, Talita? Você sabe quais são as flores que plantei antes da curva do fim da estrada? Você estava lá quando eu decidi quais plantas ficariam em volta da grande árvore? Onde você estava, Talita?" O coração apertou. Essa última pergunta foi difícil de ouvir. Foi exatamente essa pergunta que a menina fizera ao homem há pouco. E ele voltou a mexer na fogueira. "Não sei de nada do que você está falando.", disse a menina, agora bem mais mansa. Ajoelhou-se ao lado dele e repetiu: "Não sei de nada.". Ele sorriu. Virou-se de lado e retirou de um balaio, que a menina ainda não vira, um odre e um pão. Entregou o odre à menina. Partiu o pão. Tirou o peixe do fogo e o pôs dentro do pão. Entregou também à menina. Ela ceou. Ele ficou ali ao lado dela. Ao terminar a refeição, Talita encostou a cabeça no ombro dele e sussurrou: "Você vai de novo, não é?". O Jardineiro esboçou um sorriso, pegou na mão da menina e respondeu baixinho em seu ouvido: "Meu amor, você ainda não entendeu que eu nunca fui?"



...

Assustou-se. Abriu os olhos. Num pulo, Talita se levanta no meio da noite e se assenta no chão de terra. Onde estava a fogueira, o Jardineiro, a fogueira? Nada estava ali. Será que tudo não passara de um sonho? Quase deixou que seu coração se entristecesse quando... ah, que linda cena percebera! Talita baixou os olhos ao seu lado e ali estava seu vasinho! Mas não era sua pura afeição ao objeto que a movia... havia brotado dele uma pequena folha verde, cheia de vida e esperança! Agora sim ela compreendera que a semente estava ali o tempo todo. Ele estava ali o tempo todo. E havia se tornado o seu maior amor, o seu sonho de menina. Abraçou seu vasinho, agora com planta. Deitou-se e quis sonhar com o Jardineiro. Olhou para o céu. Lembrou-se do calor da fogueira.



E dormiu, esperando que o sol a acordasse.

(continua)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A noite de uma estrela só

Parte IV

O sol se quase pôs. Talita, que havia parado para assistir à bela cena, estava assentada sustentando-se com as mãos no chão para trás das costas. O vaso sem planta entre as pernas semiflexionadas parecia acompanhar o momento em que a terra recolhia para si o sol num abraço afetuosamente laranja. A cada segundo, a grande bola de fogo diminuía. Era como Talita se sentia. Mas era estranho porque, ao mesmo tempo que se sentia diminuída, sabia que, de alguma forma, isso a fazia crescer por dentro. Assim como o sol, que crescia para dentro da terra e decrescia fora dela. O ponto redondo sumiu na linha amarela e o céu estava rosa.  Nuvens cinzas contrastavam para compor o cenário perfeito. E o dia finalmente trocou o branco pelo azul quando desapareceu o último resquício da linha solar no horizonte. Talita joga o corpo para frente, de modo a não precisar mais de suas mãos para firmar-se. Com as pernas agora cruzadas, toma nas mãos seu vasinho. Afeiçoara-se a ele de uma forma que não esperava. Se bem que além do leve vestido, das sandálias que a trajavam e das perguntas em sua mente, aquele objeto de regeneração misteriosa era tudo que possuía. Era sua vida. Vida. Pensou nessa palavra. Deixou o vaso ao lado de seu corpo, cruzou os dedos atrás da cabeça e jogou-se para trás, deitando as costas e os cabelos na poeira do chão sob si. Não se importava. E viu o céu. Viajou do rosa, ao roxo e depois ao azul escuro. Observou uma única estrela que brilhava. Estava só. Única luz daquele mar de escuridão. Uma leve brisa passou por todo seu corpo. Arrepiou-se. Sentiu um frio gelado. E fome. Porque havia apenas bebido. E sentiu medo. Porque estava só como aquela estrela, e a lua não aparecera. Lembrou-se do seu encontro com o Jardineiro. "Não tenha medo", disse ele, "Ande sempre na luz". Pois é... onde estava a luz agora? E, com súbito pavor, ergueu-se presto e apoiou-se de lado pelos cotovelos. Puxou para si seu vasinho. Ele podia não ter planta, mas era seu. Arrastou-se nervosa para o canto da estrada. Trêmula, deitou-se em diagonal com o vaso abraçado ao peito. Olhou para o céu à procura da lua, mas não a encontrou. Sentia que nada a abrigava, apenas a solidão e o temor. Deixou escapar uma lágrima. Os braços gelavam-se. E como não tivesse outra opção, adormeceu no início da noite. E entregou-se ao sono sem paz, sem sonho, sem luar. Ela era a única estrela. E a estrela sentia-se .


não sabia que o céu a abraçava.

(continua)