domingo, 4 de março de 2012

Musica et Vita


Quem me conhece sabe que gosto das melodias. Especialmente das melodias mais bonitas. Mas as melodias bonitas e simples, ah! Essas eu amo. Não por causa de algum nível de dificuldade. Porque elas simplesmente não precisam de detalhes difíceis para serem interessantes. Elas são lindas por serem lindas. Simplesmente. Poderia cantá-las minha vida inteira. Seria feliz. Mas os sons que vivemos não são decididos por nós. A voz que Deus me deu é pra cantar mais do que músicas simples. Ela tem um potencial especial para cantar as mais difíceis como se fossem fáceis. A voz que recebemos não é para cantar só o simples, o bonito. É para cantarmos belamente até a melodia mais difícil que for escrita em nossa partitura. E precisamos praticar, treinar, aprender.  Temos que desenvolver as habilidades para superar a cada dia os nossos desafios musicais. Sustentar uma fermata por mais tempo. Atingir notas agudas com mais brilho. Ressoar as graves mais plenamente. Controlar melhor os stacatos para que não sejam agressivos. Aplicar a exata força no sforzando. Obedecer ao pianíssimo, mesmo que a emoção toque para nós um forte. Dar a dinâmica certa à nossa melodia. Mas ainda assim, há compassos em que precisamos aceitar notas abaixo e acima de nós. Precisamos harmonizar. Seja nos mais simples acordes maiores, seja nas mais inusitadas dissonâncias. A harmonia é funcional e cumprirá na nossa música um específico propósito. Acima de tudo, precisamos confiar no talento do Compositor. Ele é o Grande Maestro, o mais talentoso Artista. E quando o compasso à nossa frente parecer impossível de ser executado, devemos lembrar que até mesmo para as tonalidades menores, o Autor já escreveu uma picardia no final. E depois uma coda. Porque quem realmente aceita o desafio de ser regido pelo Músico Amado, nunca vai parar de cantar.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Se eu tivesse asas...



Se eu tivesse asas, não teria medo de abri-las.
Se eu tivesse asas, não me recolheria nesta caverna.
Se eu tivesse asas, cuidaria bem delas para poder voar sempre.
Se eu tivesse asas, sentiria o prazer de tirar meus pés do chão sem cair.
Se eu tivesse asas, não cairia nunca.
Se eu tivesse asas, fecharia os olhos e só subiria.
Se eu tivesse asas, voaria para outro lugar.
Se eu tivesse asas, voaria até você.
Se eu tivesse asas, visitaria as nuvens.
Se eu tivesse asas, provaria se as nuvens são algodão doce.
Se eu tivesse asas, voaria para o monte mais alto.
Se eu tivesse asas, ouviria a melodia do silêncio no espaço.
Se eu tivesse asas, lembrar-me-ia que meu lar não é aqui.
Se eu tivesse asas, creria de verdade que não há limites.
Se eu tivesse asas, tentaria tocar uma estrela.
Se eu tivesse asas, acompanharia as ondas sonoras da sua voz no ar.
Se eu tivesse asas, entenderia de verdade que nada é impossível.
Se eu tivesse asas, mudaria meu foco.
Se eu tivesse asas, caminharia só pelo prazer de fazê-lo.
Se eu tivesse asas, manteria meus pés limpos.
Se eu tivesse asas, veria a linha do horizonte do outro lado do mar.
Se eu tivesse asas, sonharia mais alto.
Se eu tivesse asas, descansaria.
Se eu tivesse asas, ainda assim tua mão me guiaria.
Se eu tivesse asas, ainda assim tua destra me susteria.
"Assim eu disse: Oh! quem me dera asas como de pomba! Então voaria, e estaria em descanso." (Salmos 55:6)
"Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá." (Salmos 139:9-10)
 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sem medo de Sonhar


Olhei nos olhos dele. Tive uma vontade imensa de sonhar. Segurei a vontade. "Não posso!", pensei. Já sonhei e me frustrei. Já sonhei e vi meu sonho se desfazer como fumaça. Ele sorriu. Olhou para mim outra vez. "Ai, que vontade de sonhar com esses olhos pra sempre!", foi meu outro devaneio. Abriu a boca e era música no ar. "Você nunca vai se frustrar ao meu lado.", ele disse. Acreditei. Acreditei mais um pouco. Depois, duvidei. "Já ouvi isso antes", lastimei. Como se fosse possível, naquela pura aura, alguma sombra de variação. "Você sabe que o que eu digo é verdade", respondeu ele. Paciente e lindo, muito belo. Tomou minhas mãos e me pôs de pé. "Quero que você caminhe nas pontas dos pés.", pediu. Cavalheiro que ele é. Não dá pra negar um pedido doce como esse. Sem soltar as suas mãos, andei na ponta do pé. Em direção a ele. Até que chegamos tão perto um do outro, que nasceu aquele abraço. E bem no meu ouvido ele cantou. "Minha amada", e desfaleceu meu coração, "mesmo que você caminhe nas pontas dos seus pés, ainda não vai alcançar o céu." Eu sabia. Não podia sonhar. Por que me permiti àquele abraço? Se eu não podia alcançar o céu, por quê andar na ponta do pé? E ele, lendo meus pensamentos, como sempre gosta de fazer, explica: "Você pode caminhar com a ponta do pé na muralha mais alta do mundo.", disse suavemente. E, com um suspiro, afastou-se do meu ouvido para olhar nos meus olhos novamente. "Você nunca vai sonhar o impossível a ponto de se frustrar." Então, como se fosse a lei mais natural do universo, ou como se nunca na história  da minha vida eu houvesse sofrido por nada, ele continua a música: "Não tenha medo. Os meus sonhos sempre serão mais altos que os seus." Suspirei. Era inevitável me apaixonar por ele. E me rendi ao melhor beijo da minha vida, na mais linda e inesquecível dança numa noite de luar.

"Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos."

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Já vivi...


  
Já vivi coisas boas.
Já vivi coisas ruins.
Já vivi lágrimas como rios de tristeza.
Já vivi lágrimas como torrentes incontroláveis de riso.
Já vivi sonhos que não sonhei.
Já vivi pesadelos que não imaginei.
Já vivi fotos que não tirei.
Já vivi horizontes que ninguém fotografou.
Já vivi personagens que sofreram.
Já vivi personagens que superaram a dor.
Já vivi horas com intensidade.
Já vivi horas de tédio.
Já vivi momentos que pensei que nunca enfrentaria.
Já vivi amizades que pensei que nunca conseguiria.
Já vivi superações que pensava ser impossíveis.
Já vivi recuperações de doenças que pensei ser incuráveis.
Já vivi canções belas de se dançar.
Já vivi canções que não queria ouvir.
Já vivi vitórias.
Já vivi derrotas.
Já vivi as dores de um prêmio de consolação.
Já vivi a tristeza de pagar pelos erros.
Já vivi a emoção do resultado de acertar.
Já vivi o amor.
Já vivi o desprezo.
Já vivi o descaso de quem pensei poder confiar.
Já vivi loucuras.
Já vivi sanidades.
Já vivi desvarios para depois elucidar.
Já vivi encontros.
Já vivi desencontros.
Já vivi desafetos.
Já vivi embaraços.
Já vivi glórias.
Já vivi de tudo um pouco.
Já vivi tudo de mim.
Já vivi pouco de mim.
Já vivi coisa bonita de se viver.
Já vivi coisa feia de se fazer.
Já vivi o que se há de viver.
Já vivi o não saber.

Mas o melhor de tudo que vivi não foi o momento mais feliz, o sorriso mais bonito, a foto mais engraçada ou o abraço mais gostoso.

Foi a surpresa.

O melhor de se viver é não saber o que há de vir.

E a vida é assim, igual ao vento: não se sabe de onde ele vem, nem para onde vai.
Mas sabe-se que, com a companhia do Poeta, nunca será importante o lugar onde estamos ou o que vamos viver.
 
Com Ele, a vida sempre vale a pena viver.

...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Soneto para o Caminho



Quero sempre andar com meu amado
Caminhar toda minha vida ao seu lado
Mesmo que meus sonhos pareçam longe
A minha alma nos seus olhos se esconde

Se venho triste dessa vida e fatigada
Fatigado e triste após mim vem meu sonho
E quando a força do meu braço vira nada 
No meu Amado as esperanças ponho

A caminhada é triste, rosa, cinza e alegre
Todos os elementos ela, embora, integre
É constante, reta, bela em sua totalidade

E reto é quem caminha reto nesta reta trilha
Pois não há como Pai certo ter incerta filha
E retos andamos eu e Ele para a eternidade

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O pedido final

Final

Ela não teve ar dentro de si para emitir qualquer som em resposta. "Calma, Talita. Sou eu!" retoma o Jardineiro. E lentamente a menina relaxava as pernas tesas pelo susto. Olhava fixamente para seus olhos. Que luz é essa nesse par de olhos lindo? Olhos de fogo. Seu olhar a consumia, mas não tirava sua vida. Fornecia. Tenta ajeitar-se. E o Jardineiro lá continua acocorado olhando a menina. Agora que estava mais calma, não conseguia disfarçar. Quem pode esconder felicidade assim? Patética? Quase. Romântica? De modo incorrigível! Estava tão apaixonada por ele... Senta-se com as duas pernas para um lado. Olha para ele de novo. Ele não havia parado de olhar para ela. E nunca o faria. Ela não consegue evitar o sorriso que lhe escapa pelo canto esquerdo da boca. Rubor. Abaixa os olhos e pergunta: "Você quer me dizer alguma coisa?", fala a menina quase recolhida. "Sim", responde o belo. "Eu vim para ver você. Está tão linda..." A menina se olha. Depara-se com seu vestido e corpo de poeira, cabelos emaranhados, pés sujos de caminhar... ele não pode estar falando sério. Mas mesmo assim ela sente sinceridade na fala do Jardineiro e as borboletas acordam dentro dela. O rosa invade as maçãs do rosto. Ela responde: "Obrigada". Pausa para tentar controlar a respiração ofegante. "É um botão.", disse o Jardineiro. "O quê?", pergunta a menina ainda rosada que não sabe sobre o que seu amado fala. "Amarelo. Que você estava tentando decifrar.", responde o Jardineiro. Então Talita lembra que estava admirando a novidade que surgira em seu vasinho de planta. Vira a cabeça para contemplar o objeto. Intriga-se. Decide tirar a dúvida: "Qual é o nome mesmo?". "Botão.", responde o homem com atenção, "É a flor que ainda não se tornou uma flor." Suspiro de sensação inesperada. É da menina, claro. "Está dizendo que isso vai se tornar uma flor?", pergunta a menina enfática e desacreditadamente. "Para mim, sempre foi. Porque o Jardineiro ao lançar uma semente, já sabe qual fruto quer colher." Respondeu o homem num tom enigmático, mas profunda e contraditoriamente revelador. "Essa é boa. Eu carregando meu vasinho o tempo todo, não imaginava que fosse sair algo tão belo do meio do barro.", diz Talita. "É o que o Jardineiro faz de melhor: suscita do barro preciosidades em vida.", diz o Jardineiro, que acaba de encabular a menina ao pegar nas mãos dela e a fazer suar frio. É a magna cena. Os dois se olhando nos olhos. Ele feliz, ela nervosa. O botão de flor amarelo ao lado, a copa da árvore acima deles e os campos dançando à música do vento iluminado e aquecido pelo sol... todos ansiosos pela próxima fala. "Talita", ele começa. "É chegada a hora de você florescer." A menina está estatelada e o homem sabe que ela não está entendendo suas palavras. Ainda. Ele recomeça: "A terra, o barro que há no seu vasinho suportou todos os sois e tempestades enfrentados. O calor escaldante, o frio cortante, os ventos... nada disso fez com que o barro desistisse de ser a casa da Vida, o lugar ideal para a Vida surgir. Porque, mesmo depois de todas essas fases difíceis, o barro recebeu a Vida que veio pela morte da Semente dentro dele..." Pausa. "Entende, Talita?" A menina continua confusa. O Jardineiro aproxima-se dela. Toma-a pelos braços e levanta. Ele a está segurando e ela sorri.


"Casa comigo."
Até o vento parou. Só os corações continuam. E aceleram. A menina, cujos olhos começam a lacrimejar, cairia no chão se seu amado não a tivesse nos braços, porque ela perdera as forças ao ouvir dele aquela frase. Os olhos do Jardineiro pareciam entrar e sair livremente do interior dela de tão irresistivelmente lindos e profundos que eram. Ele sorri. Ela esboça um abrir de boca mas não teve ar dentro de si para emitir qualquer som em resposta. O Jardineiro embala a menina nos braços e fecha os olhos: "Você é o barro e Eu Sou a Semente. Você entende agora, minha Flor?" Pausa. "Eu Sou o Caminho, do qual você não se desviou. Eu Sou o Sol que deu a você a Vida, que a aqueceu, que a iluminou. É por isso que é amarela sua flor." A menina, perplexa, pisca rápido várias vezes em tentativa de organizar todos os pensamentos e entendê-los.
"Sim."
Ela disse sim. Disse sim quanto a finalmente compreender tudo por que passara. Disse sim para cada um dos belos gestos do Jardineiro. Disse sim para o pedido de casamento do seu amado. Ele gentilmente coloca no chão os pés de sua noiva. Ela se firma sobre a terra. Ajeita-se. Ele vira de costas e sai andando. Ela não entende a atitude, mas aprendera a confiar. Até que vê o Jardineiro abaixar-se sob a copa da árvore da qual haviam se distanciado em alguns dos giros dele com Talita nos braços. Ele se levanta e caminha de volta em direção à amada, portando em suas mãos o vasinho que a ela dera há muito tempo. Novamente de frente um para o outro, fala o Jardineiro: "Você fez a melhor escolha, minha amada. Mas agora terá de confiar em mim. Pode ser doloroso por um momento, mas é o que você quer. Não deseja estar para sempre comigo?". "Sim, é o que eu mais quero", responde apaixonada. "Esse vasinho não suporta a força do Amarelo que tenho a compartilhar com você. Ele precisará ser quebrado.", diz o Jardineiro. Uma lágrima escorre pela face de Talita. Sente   uma forte dor a ponto de dar um grito desesperado de morte. Seu noivo a olha nos olhos e ela se comove porque Ele parece se importar mais com aquela dor do que ela mesma. E, nesse exato instante, o Jardineiro quebra todo aquele vaso em suas grandes fortes mãos. E Talita cai. E já não é.

...

Haveria quem pudesse dizer que ela morreu. Mas o fato é que logo após ter caído, Talita se levanta. Olha-se, ela traja novas e belas vestes como de princesa. O lugar é o mesmo: o Caminho. Mas tudo é novo. Ao invés de poeira, ouro. Ao invés de campos, flores. Ao invés de vento, música. Tudo era fresco e ouvia-se algo parecido com o som de muitas águas. Era um som maravilhoso para quem conhecera o deserto. Há muito ouro em todos os lugares. Ouro Amarelo. Põe a mão na cabeça. Descobre uma coroa grande e com pedras preciosas. Podia ver-se refletida no ouro ao chão. Olha novamente para os diamantes bordados nas saias de seus vestidos... quando uma mão levanta seu rosto. Era o homem mais belo que já vira. Trajava-se como um Rei. Ele olha a princesa à sua frente e a convida: "Talita, minha amada esposa, dance comigo." Então ela reconhece o Jardineiro. Aproxima-se dele e pergunta: "Jardineiro, você é um príncipe?" Ele sorri para sua amada e responde carinhosamente: "Eu Sou o Príncipe da Paz." Ela sorri de volta. Não se lembra mais da fome que passara, ou do frio, ou da chuva, ou da lama, ou do calor. Só pensa em sua dança. E em seu Príncipe. E na Paz.

...

E dançaram para sempre.

...

E longe da música, da dança, na escuridão da noite e na poeira que havia onde Talita já não era, floresce, amarela, a Tulipa.


Fim.

sábado, 1 de outubro de 2011

A dança do Amarelo

Parte VII



O sol se pôs. O sol nasceu. Várias vezes repetiu-se essa dança. Nunca falhou. O sol se põe. O sol vai nascendo... surge a luz. Talita desperta cada um de seus sentidos vagarosamente. Aperta os olhos. Não quer acordar. Mas se rende quando ouve o pássaro a cantar quase acima de sua cabeça. Move-se. Mas permanece deitada sobre a relva. Contempla o verde iluminado da copa da árvore cuja sombra cobre seu corpo como um manto no leito de terra. A ave voa. E sai do campo de visão de Talita. "Há tanto mais que eu não consigo ver.", imagina a menina que acordara pensando em seu amado. Agora já admite para si mesma e para o mundo que ama seu amado. Não se envergonha da boa dádiva que dele recebera: a planta. Pensa agora em quando foi posta no caminho. Sem muito compreender, falhou tanto. Mesmo depois de compreender ainda falhava... tanto. Mas agora ela sentia que o Jardineiro estava com ela. Mas não apenas isso: ela sabia que andava com Ele. Fechou os olhos. Pintou em sua mente a imagem dele. Em várias cenas. Quando lhe entregou o vaso. Quando a chamou pelo nome. Quando lhe disse que enfrentaria a fogueira para alimentá-la. Quando disse que a amava... ah, como fora lindo. E como ela havia sido boba! Lembrou-se também de quando o Jardineiro sussurrava em seu coração as palavras de ânimo ao enfrentar a fome, o frio, a chuva. Abre os olhos. Ainda deitada, esboça um sorriso. Moveu a cabeça de lado. Um susto! Seu vaso, seu lindo vaso que era um dom do Jardineiro, que era sua preciosidade, sua vida, está... diferente. Senta-se. Suas pernas ainda estão esticadas. Arrasta e põe no colo seu vasinho para observar a novidade. Olha bem. Analisa. Há algo além das plantas com que já se acostumara. Amarelo, pequeno. Formato de uma semente em pé. Mas, não poderia ser... seria uma semente muito grande. Alguns dias atrás, em intervalos das caminhadas que se sucederam entre os os sois que nasceram e se puseram, ela havia notado um pontinho diferente. Era verde. Depois ficou branco. Agora... isso. Deixa o vaso no chão. Vira o corpo de bruços. Seu vestido estava sempre empoeirado. É no que dá viver nessa terra. Apoia-se sobre os cotovelos. Os joelhos se flexionam e os pés se tocam. E balançam. A sombra a guarda do calor. E os olhos da menina ainda fixos no desconhecido. É claro que se surpreendera ao ver surgir o primeiro broto em seu vasinho. Mas o verde ela via por todos os lados. Mas... amarelo? Para ela era muito diferente. Só conhecia duas coisas em amarelo: o Sol e o Fogo. Ambos lindos, calorosos, vivos... mas intocáveis. Não há como aproximar-se do Sol. Ele é Altíssimo. E o incrível é que, mesmo tão distante da terra, Ele a despertara essa manhã e todas as outras da vida de Talita. Ela morreria sem Ele. De frio, de medo. Como viver sem o Sol? Não conseguiria. Pára os pés. A menina agora está imóvel. Só os olhos piscam. Pensa no Fogo. Ele prepara seu alimento. Ele a aquece nas noites mais frias e ilumina as mais escuras. Ele dança sobre as cinzas. Mas consome. Não poderia tocá-lo sendo como ela é. Queimar-se-ia. Como é que pode, então, surgir o amarelo em seu vasinho? A Cor tão poderosa, distante, agora estava tão perto e podia ser... tocada. E Talita ousa. A ponta do dedo médio vai à frente, mas recua. O indicador é mais corajoso para esse desbravamento. Ora, que relutância! O vaso a ela fora dado, como não poderia tocá-lo? Decide sentar-se novamente. E o faz. Aproxima a cabeça de seu pertence e, enfim... toca. Outro susto! No exato momento em que toca o amarelo, sente um toque em seu ombro esquerdo. A menina pula com os braços para trás e dobra as pernas na frente do ventre em tentativa de defesa. "Por que o susto? Não sabe que estou aqui?"

(continua...)